Quando o dia apaga a voz, fica o lume dos pensamentos. Sombras tocam devagar, como quem pede silêncio. A casa encolhe devagar, e o peito cresce no fundo. Tudo o que calo de dia acende-se noutro mundo. À noite, sou apenas o que sinto. À noite, o coração fica distinto. À noite, tudo cabe num só sopro e eu volto a ser verdadeiro. Memórias chegam ligeiras, vento a rasgar o peito. Nomes sem rosto que passam, mas ainda sabem meu jeito. Deixo que venham comigo, trazem o que fui perdendo. À noite não peço respostas basta-me um pouco de tempo. À noite, sou o que o silêncio guarda. À noite, a alma volta a casa. E no escuro que me abraça… volto a caber em mim.