(estrofe 1) Quando me acolhes nas câmaras do teu afeto, o mundo lá de fora perde a pressa e o ruído, e a alma encontra abrigo, sereno e secreto, como quem acha um porto depois do mar vencido. (estrofe 2) Há salas interiores que o amor abre sem chave, recintos de ternura, de paz e de claridade, onde até a dor mais funda desaprende o que é grave, e o peito se veste inteiro de júbilo e verdade. (estrofe 3) Não são paredes frias, nem luxo de realeza, mas câmaras tecidas de presença e de calor, onde o silêncio aprende a cantar sua beleza, e o coração se ajoelha sem peso e sem temor. (estrofe 4) Ali meu ser exulta como fonte entre palmeiras, como vinha madura sob o ouro do verão, pois teu olhar acende as mais fundas ribanceiras, e faz festa no escuro do meu chão. (refrão) Em ti nos regozijaremos, amado e rei, mais que no vinho, mais que na manhã florida, pois onde tua presença diz “entra”, eu já entrei, e achei nas tuas câmaras a alegria da vida. (estrofe 5) Teu amor não me chama para salas de distância, mas para um perto vivo, de perfume e acolhimento, onde cada detalhe possui antiga elegância, como chuva repousando em jardim ao relento. (estrofe 6) Entrar contigo é ver a tristeza desarmada, como névoa que se rende ao primeiro raio quente, é sentir a própria alma por dentro iluminada, como casa que enfim conhece o hóspede presente. (estrofe 7) Teu regaço é um lugar que não cabe em arquitetura, é recinto sem muros, mas cheio de pertença, é um reino onde a doçura se alia à formosura, e o amor se faz banquete na pura convivência. (refrão) Em ti nos regozijaremos, amado e rei, mais que no vinho, mais que na manhã florida, pois onde tua presença diz “entra”, eu já entrei, e achei nas tuas câmaras a alegria da vida. (estrofe 8) Quem conhece teu quarto conhece outro horizonte, uma claridade mansa, sem ameaça ou vanglória, como quem bebe água na nascente do monte, e sai levando no rosto a doçura da memória. (estrofe 9) Ali o tempo se curva ao compasso do encanto, e cada gesto teu vira canção repartida, teu afago transforma o que em mim era quebranto, em espiga dourada no campo da vida. (estrofe 10) Por isso me alegro quando me tomas contigo, e me fazes morada no centro do teu querer, pois tua presença é festa, descanso e abrigo, é o amor abrindo espaço para o ser florescer. (refrão) Em ti nos regozijaremos, amado e rei, mais que no vinho, mais que na manhã florida, pois onde tua presença diz “entra”, eu já entrei, e achei nas tuas câmaras a alegria da vida.