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A Parte Que Me Cabe

V6

[Introdução — piano espaçado e violão de nylon] [Falado — íntimo, sem pressa] Não tirei teu nome da minha história. Só deixei de chamar por ele Toda vez que abria a porta. [Verso 1 — contido] Hoje arrumei a mesa Sem esperar você Pus água numa jarra Vi uma flor se erguer Tirei do fundo da gaveta A toalha que minha mãe bordou Passei a mão em cada folha Que a linha verde desenhou Havia um ponto desfeito Bem onde o pano dobrou Não consertei naquela hora Meu dedo apenas pousou [Pré-refrão — crescendo] Há coisas que a gente guarda Sem precisar esconder Há coisas que vão embora E deixam trabalho a fazer [Refrão — amplo, intenso] Eu fico com a parte que me cabe A voz, a fome, a sede de viver Não levo o que teu coração não sabe Não deixo o meu morrer por não saber Eu fico com a manhã na minha sala Com o que ainda posso oferecer Se o amor voltar, que encontre a casa aberta Mas não me encontre à espera de você [Verso 2 — narrativo] Minha mãe abria as janelas Mesmo nos dias de temporal Recolhia a roupa depressa Depois seguia o ritual Punha o feijão sobre o fogo Buscava um pano no varal E, quando eu vinha com medo, Me dava um serviço banal “Segura aqui essa ponta.” E eu segurava sem falar Nós duas dobrando um lençol Até a chuva passar [Pré-refrão — firme] Hoje estendi minha roupa O céu começou a fechar Ouvi a voz da minha mãe E fui depressa buscar [Refrão] Eu fico com a parte que me cabe A voz, a fome, a sede de viver Não levo o que teu coração não sabe Não deixo o meu morrer por não saber Eu fico com a manhã na minha sala Com o que ainda posso oferecer Se o amor voltar, que encontre a casa aberta Mas não me encontre à espera de você [Interlúdio — violoncelo e piano; a percussão se recolhe] [Ponte — declamada, ganhando força] Eu te quis. Não vou diminuir o que senti Só porque terminou. Houve uma tarde, Uma cadeira perto da minha, Uma conversa que varou a noite. Eu fui feliz ali. [Breve silêncio] Mas aquela noite acabou. E eu preciso abrir as janelas. [Refrão final — entrega plena] Eu fico com a parte que me cabe A voz, a fome, a sede de viver Não levo o que teu coração não sabe Não deixo o meu morrer por não saber Eu fico com a manhã na minha sala Com o que ainda posso oferecer Se o amor voltar, que encontre a casa aberta Mas não me encontre à espera de você [Outro — voz próxima, quase falada] A água da jarra, Eu troco amanhã. A flor... Ainda fica. [Uma última nota de piano]