Escuta, amor… há um som no ar,
um assovio que insiste em ficar,
como se o vento, em seu caminhar,
soubesse de nós e quisesse contar. Era o tempo leve, sem precisar correr,
onde amar era só acontecer,
e a vida, sem medo de se perder,
cabia inteira no eu e você. Sob a lua, cúmplice e cheia,
o céu nos vestia em sua teia,
e o mundo, tão vasto lá fora, alheio,
se rendia pequeno ao nosso passeio. Na mesa do bar, entre um gole e outro,
havia um silêncio maior que o todo,
um pacto mudo, profundo, absorto:
ser infinito naquele pouco. “A mesma de sempre”, você dizia,
como quem fixa a eternidade no dia,
como quem pede à própria harmonia
que não desfaça o que ali nascia. Mas o tempo esse sábio imperfeito 
não guarda promessas no mesmo leito,
leva consigo, num sopro desfeito,
o que julgamos eterno direito. E ainda assim, nesse ir e voltar,
há algo em nós que insiste em ficar:
um eco suave a nos atravessar,
feito esse assovio a nos chamar. Cadê você, além do que fomos?
Em que silêncio repousam teus planos?
Seremos lembrança? Seremos enganos?
Ou apenas dois breves humanos? Se o vento tocar teu rosto ao passar,
e um som antigo te fizer parar,
talvez seja eu a te procurar,
no que o tempo não pôde apagar.