
Coimbra não amanhece: muda de sonho troca a névoa por um rumor de janelas, e há lentes desenhando lentas perguntas sobre o silêncio dourado das colinas. Nas pedras mora um tempo sem relógios, nâo o tempo dos livros, mas outro mais fundo, aquele que deixa na palma das mãos o calor de quem parte e de quem regressa, O Mondego nâo passa: vai recordando, leva sombras de barcos que ninguém viu, e palavras perdidas de muitas bocas como folhas guardadas dentro da água, Há ruas tâo estreitas que a tarde nelas caminha de perfil para nâo ferir a luz; e das varandas caem lentas fragrâncias que parecem memórias sem nome algum, Conheço os teus rostos pelos pequenos gestos: uma mâo que demora no vidro da chuva, um velho assobiando para o inverno, uma rapariga levando abril nos olhos. Nunca foste apenas cidade de estudo; há raízes mais fundas sob cada palavra, como se a terra escutasse os séculos antes mesmo de alguém lhes dar voz. E quando chega a noite nâo se apagam as vidas que te habitam desde sempre; acendem-se por dentro, muito baixinho, como estrelas aprendendo a ser humanas. Coimbra, minha amiga de águas e declives, guarda ainda lugar para o espanto; e eu canto-te nâo pelo que todos veem, mas pelo segredo que respira em ti.

