
(estrofe 1) Nas portas da herança surgiu a limitação, Filhas aguardando sem plena divisão, Pois em Números havia ordenação, Que ainda refletia antiga tradição. (estrofe 2) Cinco mulheres ergueram sua petição, Clamando justiça diante da exclusão, E o sistema antigo de distribuição Revelava marcas de rígida organização. (estrofe 3) E eu vi naquela antiga estruturação, Um mundo moldado por forte separação, Onde o direito seguia a condição Do sexo, da casa e da linhagem em ação. (estrofe 4) Mas meu espírito buscou nova direção: Se Tu és fonte eterna de compaixão, Como poderia Tua revelação Negar dignidade na repartição? (refrão) Perdão Senhor, não és Deus de limitação, Nem reduces valor por tradição, Em Jesus Cristo vejo plena libertação, Teu amor restaura toda vocação. (estrofe 5) Então Te vi sentando entre multidão, Elevando mulheres à participação, E quebrando antigos muros de exclusão, Com palavras vivas de inclusão. (estrofe 6) Te vi com Maria Madalena em devoção, E com outras mulheres em transformação, Dando voz, nome e reconstrução A quem vivia à margem da nação. (estrofe 7) Teu Reino não conhece diminuição, Nem restringe graça por condição, É mesa aberta em ampla expansão, Onde todos recebem igual porção. (refrão) Perdão Senhor, não és Deus de limitação, Nem reduces valor por tradição, Em Jesus Cristo vejo plena libertação, Teu amor restaura toda vocação. (estrofe 8) Quantos ainda vivem na repetição, De antigos padrões de exclusão, Sem perceber que Tua revelação Rompe estruturas de opressão. (estrofe 9) Tu és como fonte sem restrição, Que corre livre por toda região, E jamais negarias participação Por gênero, origem ou posição. (estrofe 10) Hoje releio Números com reflexão, Reconhecendo ali contexto e tradição, Mas em Cristo encontro a compreensão: Teu rosto é justiça e restauração. (ponte) Falhei ao não ver o avanço da compaixão, Ao confundir costume com revelação, Ao ignorar que Tua maior missão É libertar toda forma de opressão. (refrão) Perdão Senhor, não és Deus de limitação, Nem reduces valor por tradição, Em Jesus Cristo vejo plena libertação, Teu amor restaura toda vocação. (refrão final) Descanso em Ti, Jesus, abrigo e valor, Jamais serias injustiça ou desamor, És Deus que ergue a vida com pleno vigor, E permaneces conosco em eterno amor. EXPLICAÇÃO DO TEMA Em Números 27, as filhas de Zelofeade apresentam sua reivindicação para receber herança, revelando uma estrutura social claramente patriarcal, na qual a transmissão de bens e direitos estava centrada nos homens. Em sociedades antigas, a organização da propriedade era fundamental para a sobrevivência das famílias e tribos, e isso resultava em sistemas jurídicos que privilegiavam linhagens masculinas. É semelhante a sistemas legais históricos que, por necessidade de estabilidade, acabaram por restringir direitos de determinados grupos sociais. Contudo, quando esse texto é relido à luz de Jesus Cristo, percebe-se um movimento progressivo de inclusão e valorização da dignidade humana. Em Lucas 8:1-3, mulheres acompanham Jesus em seu ministério; em João 4, Ele dialoga com a Mulher Samaritana, rompendo barreiras culturais e religiosas. Teólogos como Elizabeth Schüssler Fiorenza, N. T. Wright e Richard Rohr destacam que a tradição bíblica deve ser lida dentro de seu contexto histórico, mas interpretada à luz da plenitude revelada em Cristo. Em Gálatas 3:28, Paulo de Tarso afirma que não há mais distinção de gênero em termos de dignidade espiritual em Cristo. O poema reflete essa jornada: o reconhecimento de estruturas antigas que limitavam direitos e a descoberta de que o verdadeiro Deus não restringe heranças, mas amplia possibilidades de vida, justiça e participação. Em Jesus, Deus não exclui; Ele restaura, dignifica e inclui plenamente. BIBLIOGRAFIA Elizabeth Schüssler Fiorenza – In Memory of Her (1983) N. T. Wright – Paul and the Faithfulness of God (2013) Richard Rohr – The Universal Christ (2019) Walter Brueggemann – Theology of the Old Testament (1997) Marcus J. Borg – Reading the Bible Again for the First Time (2001)

