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O Sino Debaixo da Terra

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V6

[Introdução instrumental] [Viola dedilhada, violão de aço e guitarra distante] [Verso 1] Meu pai deixou uma enxada E uma pergunta no chão Uma servia à lavoura Outra cortava a razão Passei metade da vida Sem distinguir qual das duas Fazia mais calo na mão Na noite em que fui embora Não houve bênção ou sinal Só minha mãe costurando Meu nome num embornal E um caminhão na estrada Levando a lua amarrada Nas lonas de um temporal [Pré-refrão] Quem vende o rumo da gente Não anda em nosso lugar Eu fui cobrar do horizonte O que ninguém quis pagar [Refrão] Tem um sino debaixo da terra Que não deixa meu peito dormir Cada homem que a fome enterra É uma voz que se nega a sumir Bate, sino, por dentro do barro Que eu ainda consigo escutar Se arrancaram o nome da pedra Nossa boca vai ter que lembrar [Verso 2] Na capital, meu diploma Foi o cimento nas mãos Ergui varanda e piscina Dormi num quarto sem vão Vi muita porta se abrindo Mas sempre havia uma placa Negando a minha passagem Um velho à beira da obra Me perguntou de onde eu vim Falei da serra e do açude Ele ficou sério assim: “Meu filho, a terra da gente Não cabe no documento Que fazem longe daqui” [Pré-refrão] Guardei a frase no bolso Junto do pouco que fiz E vi que o chão do meu passo Também carregava raiz [Refrão] Tem um sino debaixo da terra Que não deixa meu peito dormir Cada homem que a fome enterra É uma voz que se nega a sumir Bate, sino, por dentro do barro Que eu ainda consigo escutar Se arrancaram o nome da pedra Nossa boca vai ter que lembrar [Interlúdio instrumental] [Viola e guitarra dialogam sobre baixo pulsante] [Ponte — quase falada, crescendo] Voltei quando veio a notícia De que iam cercar o lugar A casa já não tinha telha Mas tinha quem fosse morar Minha mãe me mostrou a cancela Meu irmão me estendeu um facão Não pra ferir quem chegasse Mas pra limpar nosso chão E ali, entre o mato e a cerca, Ouvi o que fui procurar: Não era um chamado dos mortos Era gente querendo ficar [Refrão final — voz aberta, coro discreto] Tem um sino debaixo da terra Que não deixa meu peito dormir Cada homem que a fome enterra É uma voz que se nega a sumir Bate, sino, por dentro do barro Que eu ainda consigo escutar Se arrancaram o nome da pedra Nossa boca vai ter que lembrar [Outro — voz e viola] Meu pai deixou uma enxada Eu vim terminar o roçado A pergunta continua Mas já não pergunto calado