(estrofe 1) Ergueram certezas como lâminas frias, afiadas na pedra da interpretação, fizeram da dúvida heresia tardia e da escuta um risco à salvação. (estrofe 2) Vestiram a fé com armadura rígida, sem frestas para o outro existir, e toda pergunta virou inimiga de um sistema que teme ouvir. (estrofe 3) No púlpito, a voz já não era convite, mas ordem selada em tom marcial, quem não repetia o mesmo limite era visto como mal. (estrofe 4) Criaram fronteiras dentro da alma, muros de dogma e exclusão, onde o amor perdeu sua calma e a graça virou punição. (refrão) Não é o Cristo que fere ao falar, nem o Reino que impõe pela dor, quando a fé precisa guerrear, já se perdeu do caminho do amor. (estrofe 5) Transformaram textos em balas verbais, lançadas contra quem discorda, como se Deus assinasse editais de guerra travada na borda. (estrofe 6) O diferente virou território a ser vencido em nome da luz, e esqueceram que o verdadeiro Evangelho nunca se impôs — sempre seduz. (estrofe 7) A rigidez virou sinal de pureza, a dureza, sinal de valor, e a ternura passou a ser fraqueza num campo travado por fervor. (refrão) Não é o Cristo que fere ao falar, nem o Reino que impõe pela dor, quando a fé precisa guerrear, já se perdeu do caminho do amor. (estrofe 8) Mas houve um Mestre que calou a espada no jardim da noite traída, e curou a orelha ferida de quem vinha tirar-lhe a vida. (estrofe 9) Ele ensinou que o inimigo não se vence com grito, desprezo ou exclusão, mas com pão repartido e presença que desmonta a agressão. (estrofe 10) Se a fé quiser ser chama que ilumina, não pode incendiar o irmão, pois a verdade que em Deus se inclina não precisa de imposição. (refrão) O Reino cresce em mansidão, não em trincheiras de acusação, onde o amor desarma a mão, e a paz refaz o coração.