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Espelhos

V4.5+

[Verse 1] Falo do espelho como quem fala de um ofício: repetir sem falha, dar outra face à face dada. Vidro não sonha: executa. Água não pensa: copia. Ébano liso: reimprime. Três matérias do mesmo trabalho: o claro que devolve, o fundo que devolve, o negro que devolve. [Pre-Chorus 1] Não há surpresa na peça. Há método: superfície, ângulo, um silêncio que fabrica. [Verse 2] Quem teme espelho não teme mito; teme a máquina do igual, o multiplicador sem ruído. O mundo, nele, se duplica como pão em fôrma: mesmo pão, outra crosta. Há espelho em metal disciplinado, há espelho em madeira escurecida; um cobre frio, um mogno que fuma o rosto que olha e é olhado. Todos trabalham no mesmo pacto: dar filhos ao objeto, fazer do único um enxame. [Pre-Chorus 2] À tarde, um hálito os embaça: prova de que respiramos, prova de que ainda ficamos. O cristal não dorme: vigia. Se há um espelho no quarto, há mais um homem na vigília. [Verse 3] Ao amanhecer, arma teatro: cenários de silêncio, atores invertidos de hábito. Nessas salas de vidro o acontecido acontece outra vez sem memória. A escrita anda ao contrário, ando rabino lendo de trás. [Bridge] Cláudio, rei de tarde curta, só soube do sonho quando outro lhe mostrou, em palco seco, o mecanismo da sua culpa. Raro é o sonho; mais raro o espelho entrar no gasto inventário do dia e levantar, com linha simples, um orbe que só existe ali. Se houver um deus, trabalha nisso: na arquitetura impalpável da luz batendo no vidro, da sombra vertida no sono. Ergueu noites como galpões de sonho e moldes espelhados de forma para o homem aprender, sem lirismo, que é réplica, gasto, vaidade. [Chorus] Não é assombro que nos alarma, é o cálculo que nos iguala: a conta de pó, de tempo e de gesto que o espelho nos cobra de volta.