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VIGÍLIA DE VIDRO (CRISTAL & TÂNATO)

V6

[INTRO] (Chiado quente de fita magnética. O pandeiro mastiga ghost notes sincopadas no fone esquerdo, enquanto um violão de nylon entra macio, dissonante, numa bossa torta. Entra um stab pontual de Rhodes e a respiração pesada, ofegante, colada na cápsula do mic.) (Spoken word cínico, voz seca, sem reverb) Setenta e duas horas sem fechar a porra do olho. O corpo pesa dez toneladas de chumbo, mas a cabeça... a cabeça tá voando a mach três. Sorri pra mim de novo, desgraça. [VERSO 1] (O bumbo entra no suingue do 2-step, o surdo marca o pulso como um coração arritmado. O baixo acústico desliza veloz.) A pálpebra tem peso de bigorna, mas não desce, O sol já bate na cortina e essa vigília não arrefece. Christina entrou no quarto com seu dente de cristal, Me empurrou num foguete supersônico, visceral. Ela estala os dedos finos, me incendeia a traqueia, O sangue virou faísca correndo dentro da veia. Tô bocejando há três dias, com o maxilar travado, Um zumbi elétrico, lúcido, completamente chapado. Eu só queria um travesseiro macio pra apagar, Mas a saliva que ela cospe não me deixa nem piscar. [REFRÃO] (Explosão do samba breakstep! Os metais entram atacando em chamada-e-resposta, o Rhodes ferve, grave estalado no peito.) Era pra boca de Hypnos me dar o beijo da calma! Era pro corpo de Morfeu me foder e levar minha alma! Mas Christina me tragou no seu sorriso cortante, Viciou meu oxigênio nesse motor fumegante! Eu morro de sono, mas a mente não deita! Eu imploro pela cama, mas o nervo rejeita! Christina... teu espelho me queima em brasa! E o descanso dos deuses nunca pousa na minha casa! [VERSO 2] (O beat cai pela metade — halftime drop — a cuíca geme discreta ao fundo misturada com um sintetizador ácido. A guitarra com wah-wah chora nos contratempos.) A luz fluorescente da cozinha zune no meu ouvido, Todo copo d’água que eu bebo parece veneno fervido. Procurei o deus do sono na sarjeta e no colchão, Mas achei só o reflexo do pó branco na minha mão. Christina gargalha alto, transparente e vadia, Me promete o infinito, me rouba toda energia. Minhas têmporas latejam, parece tambor de guerra, Eu sou um satélite solto que se recusa a tocar a terra. O cansaço é um bicho escuro que mastiga minhas costas, Mas se eu tento apagar, essa mulher me traz respostas. [REFRÃO] (Volta o groove a todo vapor, metais brilhantes, percussão acelerando o shuffle.) Era pra boca de Hypnos me dar o beijo da calma! Era pro corpo de Morfeu me foder e levar minha alma! Mas Christina me tragou no seu sorriso cortante, Viciou meu oxigênio nesse motor fumegante! Eu morro de sono, mas a mente não deita! Eu imploro pela cama, mas o nervo rejeita! Christina... teu espelho me queima em brasa! E o descanso dos deuses nunca pousa na minha casa! [BRIDGE] (Corta a bateria. Fica apenas o bordão do violão de nylon ecoando no plate reverb e um prato de condução tocado com vassourinha. O vocal sobe num desespero rasgado, quase engasgado.) Cansei de negociar com o teto do quarto. Cansei de fingir que esse transe me basta. Hypnos me deu as costas... o beijo dele secou. Morfeu cansou da minha cama e foi embora. Christina, teu vidro já não me sustenta... A cinza é fria. A carcaça arrebenta. Se o sono não vem por bem... Se a trégua nunca me alcança... (Silêncio total por 1 compasso. Apenas o som do ar sendo puxado com força.) Eu chamo o irmão mais velho pra encerrar a dança. [REFRÃO FINAL MODIFICADO - SE RENDENDO A TÂNATO] (DROP MONUMENTAL! O andamento dobra num samba-funk frenético, mas a harmonia modula para um tom menor, fúnebre e imponente. Trompetes histéricos e atabaques em transe.) Foda-se a boca de Hypnos! Já não quero o carinho! Foda-se a porra de Morfeu, me cansei do caminho! Larga meu braço, Christina, recolhe a tua fumaça, Que eu abri a janela pro dono de toda desgraça! Vem, Tânato! Rasga a cortina e me leva pro fundo! Corta o fio dessa insônia, me desliga do mundo! Não quero mais sonhar, eu quero o peso da foice! Apaga esse motor que o teu abraço me trouxe! O sono eterno é o único rei que me acalma... Vem, Tânato, porra! Puxa a tomada da alma! [OUTRO] (A fúria percussiva desacelera bruscamente, transformando-se num d’n’b quebrado e desbotado. O som de passos arrastados. O nylon toca o último acorde com nona menor e deixa soar.) (Sussurro próximo ao microfone, estalando a garganta) Christina derreteu na calçada. Hypnos perdeu a vez. Tânato... Pode fechar meus olhos. Finalmente. (Corte seco no tempo 1. Silêncio absoluto.)