
Estrada... Porque insistes em chamar-me? Quando juro que esta será a última viagem, tu apareces outra vez... com mais um horizonte, mais um amanhecer, mais uma promessa. E tu respondes... "Porque ainda não viste tudo." Então volto a ligar o motor. As cidades passam por mim como páginas de um livro que nunca acaba. Conheço pessoas que nunca soube o nome. Mas nunca esqueci o sorriso. Conheço parques onde a amizade custa apenas um café quente e um aperto de mão. Conheço o silêncio de quem perdeu alguém... e mesmo assim continua a conduzir. Foi aí que percebi... A estrada não separa pessoas. A estrada apresenta famílias que ainda não se conheciam. Os motards chamam-lhe liberdade. Os Comandos chamam-lhe honra. Nós... Chamamos-lhe casa. Porque casa nunca foi um lugar. Casa é aquele momento em que dois desconhecidos acenam um ao outro como se fossem irmãos há cinquenta anos. Por isso... No dia em que eu partir não fechem a porta da garagem. Deixem-na aberta. Talvez o vento entre... Talvez tragam consigo o cheiro do gasóleo, da chuva, do asfalto quente... E alguém sorria sem perceber porquê. Porque há pessoas que desaparecem do mapa... Mas nunca desaparecem da estrada.

