
A última rotunda
Verso 1 Saí de casa tão contente Com o café a aquecer O dia parecia perfeito Nada havia a temer Mas junto ao cruzamento Onde costumo acelerar Senti um aviso antigo Que me fez desacelerar Um aperto traiçoeiro Uma pressão sem igual Como um trovão silencioso Anunciando o temporal ⸻ Refrão Ó meu Deus, não é possível Ainda faltam dez quilómetros E o inferno já começou Cada curva é sofrimento Cada lomba é uma explosão E eu vou rezando baixinho Pela minha salvação ⸻ Verso 2 A transpiração aumentava Mesmo sem estar calor A minha alma abandonava Qualquer traço de valor Já não pensava no trabalho Nem nas contas por pagar Toda a minha existência Era apenas aguentar Os semáforos vermelhos Pareciam perseguição E cada carro mais lento Uma afronta ao coração ⸻ Refrão Ó destino desgraçado Porque me vens castigar? Se pequei, mostra-me onde Mas deixa-me lá chegar Porque a guerra que hoje travo É maior que o próprio mar E a qualquer segundo temo Ver o império desabar ⸻ Ponte Prometi mudar de vida… Prometi beber menos café… Prometi respeitar os sinais… Prometi tudo… Tudo… A quem quer que estivesse a ouvir… ⸻ Clímax Vejo o edifício ao longe Como um náufrago vê terra Mas o corpo já não escuta As ordens que a mente encerra Cada passo é uma negociação Cada músculo uma prisão E eu descubro finalmente O verdadeiro significado Da palavra tensão ⸻ Final Entrei… Corri… Fechei a porta… E naquele momento… Com lágrimas nos olhos… Com a dignidade destruída… Mas a alma salva… Percebi… Que os verdadeiros heróis Não estão nos livros… Estão no trânsito das oito da manhã.

