
Coletes Rasgados
Respeitar a dor Honrar a perda É fazer o luto Não vestir o luto Muito menos soluçar por culpa Do que não se fez ou ficou por fazer Perder a vida de alguém Só acontece enquanto tens a tua Perder a vida de alguém Acontece de várias formas A morte em vida, é uma dessas formas Outra, é a distância quem crava a lança Naquele ponto exacto, que quase mata E que chega mesmo a mata Por momentos, meses ou anos Até o Ser irromper por dentro Rasgando os coletes que lhe sugavam as forças Perder a própria vida por ter perdido a vida de alguém É manter viva a promessa de Amor É cuidar da chama original Ser portador da vida eterna Nascemos fiéis à eternidade Carregam-nos a memória das histórias Dos possíveis e impossíveis Das regras absurdas Das consequências, castigos Sentencas, punições Execuções, humilhações Guiões do certo e do errado Camisas de forças para a percepção Algemas para a acção Grades para a expansão Correntes para a libertação Folhas de papel para a construção Aguarelas para esborratar Um mundo feito de lagrimas Sangue E suor. Meu irmão, minha irmã É tempo de levantar Não de ripostar, mas de encarar Sem medo de te afogar Desta vez, não é luta, é o amor a rasgar A batalha invisível que decorre no ar Não precisamos de chão para andar Nem de armas Para AMAR Lutas por um teto Um teto que na verdade é um limite Que as regras não mostram como superar Por medo, fazem-te ajoelhar Por insegurança, subjugar Eis o tempo chegado Da verdadeira força conhecerdes Estraçalhas o absurdo com um ranger de dentes Desfazes o ridículo com um levantar de sobrancelhas Esse é o teu verdadeiro poder O de arrasar com amor aquilo que te fez dobrar perante regras de quem não sabe amar Sem ser a aprisionar De quem não sabe contemplar Sem ser no cativeiro De quem te ensinou que cuidar É na verdade depender Dos que te dizem que dar é esvaziar Para poderem, eles, acumular Dizem ensinar-te a pescar De cana armadilhada, ai vais tu Pescar peixe envenenado Cheio do achismo próprio de quem acha que sabe, seja o que for Por aí ias tu, não convencido, mas resignado Convencido que o trunfo era algo raro AGORA JÁ SABES O JOGO ESTAVA VICIADO

