
Título: Nome de Vento [Verso 1] Disseram que o inteiro cabe em santos, baixios, relâmpagos, mapas de sal guardados na dobra do pulmão. Você espera o céu ceder, teto feito de pálpebras, mas o ar que escapa já conhecia a sua mão. [Pré‑refrão] Entre o grito e o que não diz, um fio acende um rumor: é o passo antes do passo, sua chance de ser dor. [Refrão] Você sabe quem te chama quando o nome não responde? Você ouve o que te ama no silêncio que te esconde? Você sabe quem te chama, no eco que te repete? Quem é você quando atravessa o risco do seu alfabeto? [Verso 2] Nada te contaram: pedra, pária, poeira fria, reza sem língua, catedral de sombra e chão. Você queria o céu dobrando a sua dúvida, mas o tempo se abre — pulsa vivo na sua mão. [Ponte 1] Vai até o vão das costelas, onde o erro vira vento; fica até que o susto passe e te deixe um novo acento. Quem parte prova a fome, quem fica vê o degelo; o mundo é breve e justo: não há nome sem desvelo. [Refrão 2] Você sabe quem te chama no adeus que não se apaga? Você guarda o que te inflama ou se apaga na palavra? Você sabe quem te chama quando tudo vira aresta? Quem é você quando atravessa o corpo onde se manifesta? [Verso 3] Só se entende o abismo quando o corpo já se lança: o chão, espelho antigo, devolvendo o seu rumor. O “eu” que respondia era eco de si mesmo, morre ao encontrar a boca onde nasceu o dissabor. [Queda / Refrão suave] Você sabe quem te sabe? Você sabe quem te soa? Quem sussurra na sua noite: “sou você que ainda perdoa”? Se o seu nome é um rio, por que a sede não descansa? Se eu sou quem você conhece, por que foge da lembrança? [Ponte 2 — sussurrada] Entre o “eu” e o “você” há vento que ninguém veio aprender; mas todos já foram vento antes mesmo de nascer. [Refrão 3 — em crescendo] Você sabe quem te chama quando a voz já não compete? Você segue a chama branda ou se perde no que veste? Você sabe quem te chama — sem rosto, sem decreto? Quem é você quando atravessa o limite do seu teto? [Outro] Vai — e quando for, que volte como rastro, pão e tom. Fica — e quando for ponte, dê passagem à sua mão. Quando o mundo te desnome, quando a rua erra o endereço, que um vento — só o vento — te reconheça pelo avesso.

