
o boto do chapéu
[Verso 1] Nas águas negras e profundas do Amazonas, nada de dia um boto rosa, quieto e solitário. Mas quando a lua cheia ilumina a mata escura, ele sobe à margem — um homem todo de branco. [Verso 2] Cabelo negro como a noite, sorriso calmo e quente, traz um chapéu branco que nunca tira da cabeça. Com ar sério entra na festa à beira do rio, anuncia a verdade como se só ele a soubesse. [Pré-Refrão] O povo murmura à sombra das palmeiras altas: “Quem é esse estranho que chega quando as estrelas brilham?” Ele fala com voz grave, cheia de convicção, leva as pessoas para as sombras da floresta escura. [Refrão] Cuidado com o Boto, senhor da noite no rio, debaixo do chapéu branco esconde um respiradouro. Quando a aurora chega e a luz do dia desperta, ele volta para a água — boto rosa outra vez. [Ponte] Numa noite, enquanto anunciava a grande verdade, o chapéu escorregou e caiu no chão molhado. Ali ficou exposto — o buraco que sopra como o do boto, e sua essência verdadeira apareceu nua, sem encanto. [Refrão Final] Agora todos sabem o segredo do Boto do chapéu branco: à noite um homem sério que diz a verdade, de dia apenas um ser da correnteza funda. Ele atrai com palavras grandes, mas nunca fica, ao raiar do dia some na água silenciosa. [Final] Por isso, cuidado, gente das margens do grande rio, com estranhos de branco que prometem verdades ao luar. Pois atrás de cada palavra firme e olhar seguro pode estar o Boto à espreita… até o galo cantar.

