
A mesa posta e a cadeira vazia, Olho o relógio e o tempo não volta. A noite traz-me a pior companhia: Esta saudade que range na porta. Partiste cedo, na hora errada, Ficou o mundo suspenso num fio. A tua ausência não deixa ver nada, Deixou a casa num luto tão frio. Tantos invernos em que estivemos longe, Anos de muros, de pontes partidas. O orgulho cala, a distância esconde, As linhas tortas das nossas vidas. Se eu soubesse que o fim era este, Tinha corrido a quebrar o cimento. Mas a palavra que tu não disseste É o nó que me aperta o pensamento. O que teria sido de nós os dois? Se o amanhã não ficasse para depois... Ficou o peito cheio de "se", Tanta conversa que o tempo esqueceu... Ficou por dizer o que a alma gritava! Ficou por fazer o abraço que eu quis! A morte levou a palavra que faltava, E o tempo rasgou o que o fado não diz! Pai, esta saudade que queima e que chora, É a lembrança do que não vivemos... O que sobrou foi o eco de agora, E este silêncio que hoje sofremos. Penso em tudo o que podia ter sido, No teu conselho que nunca escutei. O teu olhar no meu peito esculpido, Nas poucas vezes em que te abracei. A vida segue o seu rumo maldito, Mas na minha mente a tua voz não morreu. A cada fado que canto e que grito, Une-se o cabo da tua terra ao meu céu. Ficou por dizer o que a alma gritava! Ficou por fazer o abraço que eu quis! A morte levou a palavra que faltava, E o tempo rasgou o que o fado não diz! Pai, esta saudade que queima e que chora, É a lembrança do que não vivemos... O que sobrou foi o eco de agora, E este silêncio que hoje sofremos. Ficou por dizer... Ficou por viver... Pai...

