Era só mais um rolê De frente pra praça, papo furado Rindo alto, fazendo nada E os coxa chegaram... Documento. — Mas qual foi, chefia? — Documento. A gente entregou. Mas eles travaram. Ficaram, cercaram, encostaram. “Qual é, negão?” (qual é, negão?) “Tá devendo, tá fudido!” (qual é, negão?) “Cadê o corre? Cadê a fita?” E eu só com a alma na mão, O mundo em silêncio E o tempo andando devagar Quando a farda olha tua pele É tipo espelho que quebra sem tocar (Camburão passa...) (Sangue ferve...) (Nós resiste...) (A favela observa.) Todo camburão tem alma de navio negreiro (Veio de lá, mudou de cor, mas não mudou o cheiro) Todo camburão tem alma de navio negreiro (O aço é novo, mas o racismo é o mesmo tempero) Me diz aí, quantas vez tu já foi parado? Com documento certo e mesmo assim revistado? Quantas vez tua cor virou sinal de alerta? Olhar torto da madame, da loja, da seta? Quantas vez o giro veio quente? E tu gelou, mesmo inocente? Porque preto no Brasil é suspeito nato Já nasce com número no sapato Quem batia de fivela agora usa coturno Quem te vendia aço agora te prende no turno É a mesma engrenagem, mesmo algoritmo É senzala com rádio, é grilhão com ritmo [Bridge - beat para, voz quase sussurrada] Eles só mudaram o emblema Mas o olhar é o mesmo Só trocaram a corrente Por número de matrícula Todo camburão tem alma de navio negreiro (Só mudou o uniforme, o chicote é financeiro) Todo camburão tem alma de navio negreiro (O som é de sirene, mas o grito é o mesmo desespero) Mas nós é quilombo em pleno concreto Cada passo é reza, cada rima é decreto Se tentam apagar, nós vira parede Se tentam calar, nós vira rede Favela é resistência no toque do tambor E quem vem da senzala carrega o terror Porque não tem paz sem justiça E não tem baile se tiver polícia Todo camburão tem alma de navio negreiro (Desde 1500, o sistema é carcereiro) Todo camburão tem alma de navio negreiro (Mas nós ainda dança, porque viver é o primeiro enredo) Barol Beats... No toque do corte... Negro é luta. Negro é arte. Negro é vida em alto-parte.