
Romance no Lixo
[Verso 1] Teu amor chegou feito surucucu Silenciosa, grande, com beijo miúdo Prometeste abrigo — me deste emboscada Teu carinho era cova disfarçada [Verso 2] Me enroscou no cio da tua mentira Teus olhos brilhavam como coral na beira Linda demais pra alguém desconfiar Mas tua beleza já vinha pra matar [Refrão 1 – com segunda voz em parênteses] Mas eu te amei — feito presa na estrada (Você se deitou, eu nem tive que morder) Mesmo ouvindo o chocalho da tua cascavel (Era aviso, mas você quis me querer) E mesmo sabendo da peçonha calada (O veneno era doce, você bebeu sem ver) Deitei no teu corpo, chamando de céu (E eu era só chão — com dente e com fé) [Verso 3] Tu mudava de pele com cada estação Me deixava marcas sem explicação Tua língua era doce, tua alma jararaca Sorria me vendo sangrar pela faca [Refrão 2 – com segunda voz] Sim, eu te amei — serpente encantada (Toda cobra precisa de um tolo pra amar) Com perfume de mato e promessa envenenada (Te enrolei, mas foi você quem quis ficar) Mesmo mordido, tremendo no chão (Tu chamou de paixão o que era destruição) Amei tua peçonha como oração (E eu sibilei "amém" — bem no teu coração) [Ponte – falado, com tom amargo e seco] Diziam: “não pisa onde a cobra dorme” Mas eu fui, descalço, querendo tua fome Camões morreu de amor... Eu? Morrendo de bote. Que sorte. [Refrão Final – com segunda voz] Sim, eu te amei — sem antídoto ou cura (Amor é doença que ninguém procura) Agora carrego tua marca na carne dura (Mas toda cicatriz é medalha madura) Teu veneno secou, mas deixou cicatriz (E no fim, fui eu que te fiz feliz) E na sarjeta... fui quase feliz (Quase feliz... é pior que infeliz.) [Final – sussurrado, como lamento e feitiço quebrado] Surucucu... Me esquece.


