
[verse] Nem tudo foi feito para ser entendido. Há mistérios que não se resolvem — apenas nos moldam. Buscamos respostas como quem cava um poço em terra seca, mas é o Tempo quem decide a chuva. E, por vezes, ele a derrama sobre uma colheita que já morreu. [verse] Há dias em que a espera é um fardo invisível. O relógio não marca as horas — ele arrasta lembranças. E só quem sentiu o peso de um dia que dura um século sabe o som da ansiedade batendo à porta, não como visita, mas como morador indesejado. [verse] O tempo passa, mas dentro de nós ele se acumula, como poeira em uma casa que já não abrimos. Quando nos damos conta, as batidas cessaram, e com elas, décadas inteiras. A vida, indiferente, continua — porque a vida não explica, apenas segue. [verse] Aquilo que a alma mais deseja compreender é talvez o grande silêncio do universo. Há perguntas que não pedem respostas, pedem coragem para permanecer abertas. Talvez o sentido não esteja em entender, mas em suportar o mistério sem perder a ternura. [verse] Resta-nos, então, a dignidade de lembrar sem amargura, aceitar sem nos curvar, e superar cada montanha que a vida — sem pedir licença [bridge] colocou em nosso caminho. Pois cada pedra, cada tropeço, também é uma forma de oração que o corpo faz ao caminhar. [verse] Diante do espelho, a velhice não chega. Ela se revela. É um mapa de estradas percorridas, gravado no rosto, uma caligrafia secreta escrita pelo tempo em nossa pele. Um reflexo silencioso de um tempo que foi carrasco e mestre, cruel em sua lentidão, mas justo em sua passagem. [outro] Porque, no fim, o Tempo não nos entrega as respostas que pedimos. Ele nos entrega a paz de não precisar mais delas. E talvez esse seja o milagre escondido nas rugas: a sabedoria de saber que o silêncio também fala, que o vazio também ensina, e que o amor — mesmo quando parte — ainda é o eco mais puro do que um dia fomos.

