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onde o sol se esquece de nascer

Há estradas... Que não aparecem nos sonhos de quem nunca saiu de casa. Eu conheço-as pelo nome. Durante cinco anos chamaram-me para norte. Cada quilómetro levava-me para mais longe... Mas também para mais perto de quem realmente sou. Conduzi onde o frio não perdoa distrações. Onde o gelo não faz barulho... Mas decide destinos. Vi termómetros abaixo dos trinta negativos. Vi montanhas vestidas de branco. Vi fiordes que pareciam pintados por Deus. E vi noites... Noites tão silenciosas que até o motor da Scania parecia pedir licença para continuar. Depois... Cheguei ao Círculo Polar Ártico. Ali... O tempo deixa de ter pressa. O céu dança. Verde. Azul. Violeta. A Aurora Boreal não ilumina apenas a noite... Ilumina a alma de quem teve coragem de chegar até lá. Nessa noite... Percebi que a riqueza nunca esteve na carga que transportava. Estava nos lugares que tive o privilégio de conhecer. Hoje... Depois de vinte e sete anos ao volante... Ainda há quem veja apenas um camionista. Mal sabem eles... Que eu conversei com o silêncio do Ártico. Que atravessei tempestades que muitos só viram na televisão. Que fiz da Scania uma casa. E da estrada... Uma vida inteira. Porque há homens que passam pela História. E há outros... Que deixam marcas de pneus nos lugares onde quase ninguém teve coragem de chegar.