
Ressurreição Não é vingança, não Ressurgir Como uma árvore sempre faz A semente que de lá caiu Não se lembra de ser de lá Foi levada Arrastada para longe Uma, comida e depois cagada Deu vida à relva de uma esplanada Outra, morta e enterrada Da lama ressurgiu Por um pé foi esmagada O paradoxo do esquecimento A metáfora do fauno e da flora Que injusta é a liberdade Que cruel, a verdade Que inteligente sou, por querer controlar Algo que acho saber como explicar Doutores e engenheiros Cães de castro laboreiro Homens de gravata e mangas de alpaca Debaixo do camião de estrume viram excremento Tanto o juiz como o jumento O ditador carrasco de si mesmo O escriba da sua própria sentença O hipócrita que fez o juramento O cego que fingiu não ver O mudo que não quis falar O surdo foi quem me atendeu Desta vez sem conseguir fingir Desta vez Nem o gago sequer soluçou Desta vez A preguiça nem bocejou Desta vez A farsa que se auto-enganava Acahava que tudo controlava Sabendo que a água tudo lava E que a verdadeira lava É a a água que somos Esse é o tsunami sagrado A onda que todos somos Sai da frente, vais ser arrastado Nem na ancora, nem cruz Está a salvação A redenção Está na tua ressurreição Da morte em vida Que te disseram ser a vida Há que morrer para isso, que tudo é menos vida Ainda assim, por ela amámos Ainda assim, por ela lutámos Esse foi o nosso sacrifício A nossa oferenda ao anti-cristo É tempo do sagrado ofício Tempo de o verdadeiro terço, incomporar Tempo de a mãe terra, acarinhar Os mais prazeres da terra estão na expulsão Desde o orgasmo ao cagalhão O prazer fantástico da fricção O pulsar da contracção Nasces tu e nasce o cagalhão Transferidos na posição Prontos para uma nova imersão Pelos canais percepção Pelos túneis da ressurreição As travessias pela escuridão Desaguam no oceano do inevitável Agitado pelas lágrimas do inaceitável O ressurgimento da ressurreição Escreve por cima, sem punição Desconstrói, com toda a compaixão De quem sabe que esqueceu a separação O ressurgimento é uma reunião Dos que carregam toda a condição Os necessários antes desnecessários Os imprescindíveis antes descartados Os agora melhores, antes excomungados O justos, antes subjugados Os inspiradores que foram silenciados Cristo renasce hoje em pessoa Cristo ressurge em cada um de nós Não como novo mártir a adorara Mas como soberano, a navegar Num oceano de sofrimento Que por mérito, atravessámos Cheios de medo do desconhecido Foi preciso conhecer o medo do conhecido Para não ter nada a temer Pior que morrer a sofrer é viver a sofrer Sofrer por desconhecer, não tem nada a ver Por isso mesmo vale a pena morrer Todos os dias, para esta forma de viver Que o inevitável Já está a acontecer O ressurgimento do inevitável já não é promessa ou sequer opção

