
Matinas do Servo e da Besta (Cantiga às Cinco)
À quinta hora, quando o céu inda é bruma, (Cinco da aurora, em névoa e desalento) Desperta a besta e, em lânguida espessura, Convoca-me ao dever do sofrimento. “Tem paz, meu filho”, rogo à fria altura, “Ainda dorme o mundo em seu alento”; Mas não conhece o tempo a criatura, Só vísceras e urgência em movimento. Ergo-me, então, do leito penitente, E sigo-a ao campo úmido e desérto; A relva, em pranto, beija-me o presente, E a alma em mim se encharca concérto. E parte altivo, herói de curto passo, Rumo ao orvalho e à sua liturgia. E eis que, no campo, em círculo divino, Fareja e gira em rito consagrado; Repete o gesto, lento e peregrino, Como a buscar um signo revelado. E eu, em Sandálias, ao frio já menino, Com ossos em que o inverno é entronizado, Clamo ao céu, de cansaço já inclinado: “Escolhe, ó ser, teu sítio cristalino, E verte ao chão teu fardo delicado!” (eufemismo do destino que o conduz…) Porém a besta, em cálculo felino, Delonga o ato, altiva e vagarosa; Até que, enfim, cumpre o rito matutino, Obra discreta, grave e vaporosa. E volta o olhar, sereno e soberano, Sem pejo algum, com glória silenciosa, Como a dizer, num tom quase humano: “Para isto existes — recolha minha bosta.”

