
Nunca atravessei uma fronteira. Nunca vi o mar. Nunca subi uma montanha. E, no entanto... Conheço a Europa inteira. Chamam-me... Área de serviço. Tu vês bombas de combustível. Eu vejo reencontros. Vejo despedidas. Vejo homens que chegam cansados e saem outra vez como se o descanso fosse um luxo. Conheço o camionista que estaciona sempre no mesmo lugar. O motard que tira o capacete e fica cinco minutos a olhar para o céu. Conheço o homem de boina vermelha. Pede sempre um café. Bebe-o devagar. Como quem conversa com memórias que mais ninguém consegue ouvir. Também conheço quem chora escondido. Quem sorri para não preocupar ninguém. Quem recebe uma boa notícia. E quem desliga o telefone sem conseguir dizer uma palavra. As pessoas pensam que sou apenas uma paragem. Não. Eu sou o intervalo entre a saudade e o regresso. Quando todos partem... Fico outra vez sozinho. À espera do próximo camião. Da próxima mota. Da próxima história. Porque há lugares que nunca viajam. Mas passam a vida inteira... A guardar as viagens dos outros.

