
Fechei a porta e curvei o pensamento, Deixei na mesa um lenço por chorar. Gritei baixinho ao sopro deste vento Que me arrancava do calor do lar. Olhei a rua que me viu nascer, O sol antigo que me traz abrigo, E a tua mão que eu não quero perder, Neste silêncio que levo comigo. Ai, esta saudade do que já mudou, Do abraço cego que ficou no cais! A terra chama por quem a deixou, Mas a pobreza não perdoa mais. Parti p’ra longe p’ra ganhar a vida, P’ra procurar um amanhã melhor, Mas nesta ausência, sina repartida, Pago o futuro com o meu clamor. Na mala velha de cartão rasgado, Levei o cheiro a terra e a alecrim. Aqui a noite tem outro traçado E a madrugada nunca fala a mim. Trabalho o dia com os olhos no mar, A ver se a sorte me sorri por fim, Mas nada paga o que deixei p'ra trás, Nesta distância que não tem mais fim. Ai, esta saudade do que já mudou, Do abraço cego que ficou no cais! A terra chama por quem a deixou, Mas a pobreza não perdoa mais. Parti p’ra longe p’ra ganhar a vida, P’ra procurar um amanhã melhor, Mas nesta ausência, sina repartida, Pago o futuro com o meu clamor. E quando a noite me roubar a voz, E a guitarra chorar por nós... Sei que o meu fado é querer voltar, P’ra nunca mais te ver chorar.

