
o homem que falava com o amanhecer
Todos os dias... Ele encontrava o mesmo homem. Nunca lhe perguntou o nome. Apenas sabia que aparecia sempre quando a noite começava a morrer. Era o amanhecer. Enquanto o resto do mundo abria lentamente os olhos... Eles já viajavam juntos. Um em silêncio. O outro a pintar o céu. — Outra vez tu... Murmurava o camionista. E o sol respondia sem dizer uma única palavra. Porque há conversas que não precisam de voz. Há dias em que a cabine parece demasiado pequena para tanta saudade. Há noites em que o volante parece mais pesado do que a própria carga. Mas depois... Lá ao fundo... Nasce outra vez aquela linha dourada que atravessa o horizonte. E tudo muda. Não porque os problemas desapareceram. Mas porque a esperança voltou a chegar à mesma hora de sempre. Foi então que percebeu... O amanhecer nunca aparece para mudar o mundo. Aparece apenas para lembrar que ainda vale a pena continuar. E talvez... A verdadeira riqueza de um homem da estrada não esteja nos países que conheceu. Nem nos quilómetros que percorreu. Mas no privilégio de ter visto milhares de amanheceres... Que a maioria das pessoas... Dormiu sem saber que existiam.

