
Eu olho pro teto do meu quarto entediada O silêncio me deixando agoniada Quando eu sempre fui amiga da quietude O tempo parece congelado Os segundos desamparados Os minutos estagnados E na minha cabeça um novelo de palha Rolando no deserto Como num velho faroeste Nenhuma vida pra contar história A minha alma quer viver E não importa o que eu tente fazer Parece que o relógio brigou comigo A vida é cinza e sem sentido Sonhos não realizados Que talvez eu viva na próxima reencarnação Eu me deito debaixo do cobertor Tentando me esconder do destino Que me parece tão cruel Cansada de olhar pras estrelas Que me contam mil segredos Sem dizer uma palavra Se fazendo de poesia Enquanto eu tento achar minha própria rima E tudo me parece sem graça Não consigo fazer piadas Quando queria poder ser engraçada Meu coração tá cansado de solidão Procurando alguém pra abraçar E amar meu rascunho inacabado Cada erro, cada traço apagado O papel já tá rasgado A borracha desgastada Alguém pra pintar meu rascunho cinza de grafite Alguém pra me colorir E me ensinar outra vez o que é ser feliz Alguém que me peça pra ser musa E me transforme em pintura renascentista Princesa, sereia, rainha Não importa o que eu seja Só quero ser chamada de “minha” Eu tenho tentado me achar em cada linha Achar as mil versões que eu mesma enterrei Todas aquelas que já se foram Passando na TV dos meus olhos Uma TV que nunca desliga Sem controle remoto Alguém me tira desse sistema Tudo que eu faço é suspirar Cansada de correr atrás do que devia ser meu Esse telefonema já tá longo demais Cartas empoeiradas E eu nem sei o que fazer agora Essa vinheta não termina Esse filme não tem fim Tá mais pra Grey's Anatomy Série infinita Com a mesma soundtrack Que só muda o cenário a cada temporada E vive introduzindo personagem novo Quando tudo que eu queria Era um final tranquilo Um silêncio que não me agonia Como dizia minha mãe: “Agoniada feito seu pai, ansioso de plantão” Acho que tive azar De cair no molho de tomate Em vez do de quatro queijos Sou meio apimentada Sem muita paciência Fui criada com ousadia Não esperava menos De uma leoa Leonina feito eu Mas meus pais são de peixes Então o que eu sou? Peixe ou leoa? Talvez seja melhor aprender a morder Porque tudo que eu faço é rugir E ninguém me deixa morder Deus! Eu tô cansada de me esconder no silêncio Meus medos me agarrando Os olhares me encolhendo Nada parece divertido Que azar sentir demais Quando eu queria sentir menos Eu não gosto de ser humana Sou mais fantasia Do que qualquer mania humana Charada sem resposta Solução sem enigma Uma grande reviravolta Eu não sou humana Sou magia Sou garota Garota-menina Sou garota Sou menina Sou garota Sou moça

