
# **O Que Fica no Ar** *[Fado moderno português — lento, íntimo. Guitarra portuguesa em primeiro plano, viola de fado suave, contrabaixo discreto. Voz feminina próxima, quente, tímida. A intensidade cresce sem nunca explodir.]* [Intro — guitarra portuguesa a solo] Estou diante de ti. E olho. Só isso. Tu aproximas-te, passas por mim, e continuas. [Verso 1 — quase falado] Podia estender a mão. Mas não estendo. Podia dizer alguma coisa. Mas sorrio. Tu não me pertences. Eu não te pertenço. E talvez seja por isso que cada passo teu fica tanto tempo em mim. [Pré-refrão] Há coisas que os olhos dizem quando a boca não sabe. Há desejos que crescem quanto mais ninguém lhes toca. [Refrão] Gosto desta liberdade. Odeio esta falta. Gosto de te querer sem te poder guardar. Passas tão perto que o meu corpo se lembra. E os meus lábios ficam com o sabor destas palavras: **tenho saudades tuas.** Mas ninguém as ouve. Nem tu. Nem eu. [Interlúdio — guitarra portuguesa] [Verso 2 — mais quente] Passo a mão pelo cabelo. Atiro-o para trás. O teu olhar pára. Só por um instante. Mas eu vejo. Sinto-te vacilar. Como se o teu corpo tivesse esquecido para onde ia. Depois continuas. Devagar. Como se nada tivesse acontecido. Eu baixo os olhos. Tu escondes um sorriso. E fazemos os dois aquilo que sabemos fazer: fingir. [Pequena pausa] Mas o teu perfume fica no ar. Respiro. [voz mais próxima] Um arrepio percorre-me a pele. Lento. Quase doce. Fecho os olhos um segundo a mais. E deixo-me embriagar por aquilo que ficou de ti. [Pré-refrão — tensão crescente] Já foste. Mas ainda estás aqui. No ar. Na pele. Naquele lugar onde o silêncio começa a doer bonito. [Refrão] Gosto desta liberdade. Odeio esta falta. Gosto de te querer sem te poder guardar. Passas tão perto que o meu corpo se lembra. E os meus lábios ficam com o sabor destas palavras: **tenho saudades tuas.** Não as digo. Talvez porque tenha medo. Talvez porque saiba que tu também não dirias. [Verso 3 — tímido, mais intenso] Na próxima vez, passas ainda mais perto. O teu ombro roça no meu. Quase nada. E, no entanto, o mundo inteiro parece reparar. Levanto os olhos. Tu já estavas a olhar. Desvias primeiro. Eu logo depois. E sorrimos como duas crianças apanhadas a fazer aquilo que ninguém proibiu. [Interlúdio curto] Há qualquer coisa em ti que me chama. Há qualquer coisa em mim que te faz voltar o rosto. Nunca perguntamos o quê. Talvez seja melhor assim. Talvez haja coisas que só existem enquanto ninguém lhes dá um nome. [Ponte — guitarra quase sozinha] Às vezes, queria deixar correr tudo o que sinto. Não esconder as mãos. Não baixar os olhos. Não guardar tanto. Deixar-te ver o que acontece comigo quando passas perto demais. Mas fico quieta. Tu também. Livres. Tímidos. E cada vez um pouco menos inocentes. [Subida instrumental] Há coisas entre nós que não pertencem a ninguém. Só a estes segundos. A este perfume. A este arrepio. A este silêncio que nos conhece melhor do que nós. [Último refrão — mais amplo, nunca gritado] Gosto desta liberdade. Odeio esta falta. Gosto de te querer sem te poder guardar. Tu segues o teu caminho. Eu sigo o meu. Mas alguma coisa tua fica sempre comigo. E talvez alguma coisa minha vá contigo também. Porque quando te afastas, já não caminhas igual. Há uma hesitação no teu passo. Um sorriso que escondes. E eu fico por um instante, a respirar o ar onde acabaste de estar. [voz muito próxima] Um arrepio. Outra vez. E os meus lábios reencontram devagar aquele sabor: **tenho saudades tuas.** [Outro — guitarra portuguesa a solo] Tu continuas. Eu também. Ninguém volta atrás. Ninguém pede nada. [pausa] E entre nós, nada foi dito. [muito suave] Mas tudo ficou no ar.

