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Grito de Granito

V6-MINI

[Intro] [Sons mecânicos pesados, vento do Norte e águas do Douro contra o cais. Rádio local estática mistura-se com passos em correria pelos Aliados.] [Verse 1] Apaga esse ecrã, o Porto não é o postal, Que vendem aos turistas no canal nacional. O sotaque é de ferro, a verdade é mais crua, Quando o fecho do mês se decide na rua. Lisboa assiste, mas aqui o Norte racha, Entre a corda no pescoço e a bota que esmacha. Acampados nos Aliados, a tenda é trincheira, Contra os fundos abutres que mandam na feira. A Cedofeita chora o comércio que morre, E quem nasceu nas Fontainhas já não sabe para onde corre. O direto da televisão só quer ver o estrondo, Mas ignora a carência que se esconde no fundo. [Chorus] Há fumo no Porto, o Norte acordou, A força do luto a praça ocupou! O flash da câmara brilha no escuro, Mas a Invicta não verga perante o futuro. Grito de granito, chão de alcatrão, É a revolta das ruas na televisão! É a revolta das ruas na televisão... [Verse 2] A polícia avança na noite cerrada, Para limpar as bermas da nossa calçada. Dizem no estúdio com ar de doutores, Que somos culpados das nossas próprias dores. Mas violento é o despejo, a renda que agrava, Ver a Boavista rica e a juventude escrava. Trabalhar doze horas a roçar o cinzento, Para pagar um buraco que nem tem isolamento. Gritamos bem alto, que a voz não nos falha, Quem vive no Porto não foge da batalha! [Bridge] [O ritmo abranda; guitarra elétrica distorcida e chuva nas tendas.] Eles contam os lucros, nós contamos os dias, A ver o património entregue às burguesias. Mas a Ribeira é nossa, a vossa lente cega, O povo da margem é quem nunca se entrega. Vais filmar a barreira ou o que nos sufoca? O Norte não dorme quando a fome lhe toca. [Chorus] Há fumo no Porto, o Norte acordou, A força do luto a praça ocupou! O flash da câmara brilha no escuro, Mas a Invicta não verga perante o futuro. Grito de granito, chão de alcatrão, É a revolta das ruas na televisão! [Outro] [O instrumental desaparece aos poucos; sirenes e palavras de ordem em coro.] Pedra sobre pedra... O Porto não cai. Corta a emissão. Mas a rua não sai.