
A corneta dos fundilhos
A Corneta dos Fundilhos (Amália Almeida) Verso 1 Os cães ladram lá fora As crianças choram também E neste caos desmedido Eu procurava o meu bem Mas no meio da tormenta E do ruído sem igual Os meus fundilhos preparavam Um anúncio triunfal ⸻ Pré-Refrão É algo raro nesta vida Improvável de acontecer Mas o som que ali nasceu Ninguém voltou a esquecer ⸻ Refrão Foi a corneta dos fundilhos Que se fez ouvir então Mais forte que sete trombetas Mais sentida que uma canção E quando ecoou pela sala Num momento tão solene Até os retratos da parede Pareceram perder a fé ⸻ Verso 2 No jantar de família Chegou o momento do silêncio Todos pararam por instantes Num ambiente de respeito imenso A avó pousou o garfo O tio ergueu o olhar E foi nesse exacto instante Que o destino veio tocar ⸻ Refrão Foi a corneta dos fundilhos Que entoou o seu grande canto Uns chamaram-lhe tragédia Outros chamaram-lhe encanto Mas ninguém naquela mesa Conseguiu disfarçar Porque há sons que nesta vida Nascem para perdurar ⸻ Ponte Os copos estremeceram O gato saiu a correr O cão pediu para a rua Sem explicar o porquê E eu ali, de rosto sério Tentando manter a compostura Enquanto a História escrevia Mais uma página de loucura ⸻ Último Refrão Foi a corneta dos fundilhos Ouviu-a toda a nação Uma obra inesperada De acústica e emoção E ainda hoje nos Natais Quando alguém pede silêncio Há quem olhe para mim Com legítimo receio… ⸻ Final falado Não foi um som… Foi uma mensagem… E ninguém… Ninguém estava preparado…


