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Balada do Homem que se Desfaz em Rima

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V5

--- [Abertura – agulha encontrando o sulco de um disco esquecido] Ele amou aquele tempo como se o tempo fosse um último beijo e a cada verso, um passo de dança que esquece o chão que esquece o corpo que esquece até a música [Primeira estrofe – voz de homem que fala sozinho na madrugada] Ele beijou sua mulher como quem beija uma saudade que ainda não existe e chamou cada filho pelo nome —nomes que inventou na hora exata de morrer Cruzou a rua de asfalto quente com o passo pesado de quem atravessa um rio de cimento Subiu o andaime range-range como quem sobe pela própria coluna vertebral e ergueu, no décimo andar, quatro paredes que não sabiam que eram túmulo Tijolo por tijolo vermelho como se cada um guardasse um batimento do coração Olhos cegos de cal, suor e lágrima seca como se o mundo inteiro fosse feito de poeira santa e arrependimento velho [Refrão – samba-canção tocado em piano de cabaré às três da manhã] Ele se sentou pra descansar como quem se senta no próprio velório Comeu feijão com arroz e torresmo como quem mastiga a última memória de um sábado feliz Bebeu cachaça e soluçou como uma máquina enferrujada que aprendeu a chorar Dançou um samba desengonçado e riu alto como se a música fosse um erro que valeu cada nota Tropeçou no céu de meio-dia como quem tropeça no próprio nome esquecido Flutuou três segundos no ar como o sábado que nunca chegou pra ele Caiu de costas no chão como um pacote de ossos cansados que ainda tremiam de medo Agonizou ali no meio-fio como quem morre no meio de uma frase sem ponto final E morreu na contramão atrapalhando o trânsito— interrompendo até o trânsito de Deus [Segunda estrofe – a mesma melodia transpostada, como pesadelo recorrente] Porque ele amou aquele tempo maldito como quem ama uma máquina que te cospe na calçada Beijou sua mulher de olhos fechados como quem beija uma equação que nunca fecha a conta E viu cada filho crescer como sábados que nunca foram dele, nunca foram de ninguém Cruzou a rua cambaleando com o passo torto de quem atravessa a própria lógica despedaçada Subiu o andaime balançando como quem sobe no próprio impossível Ergueu paredes de tijolos bêbados como quem ergue um castelo de música desafinada e cimento podre E seus olhos cegos de poeira e trânsito viram o mundo como ele sempre foi: feito de tempo que foge e engano que fica [Ponte – frequência de rádio morrendo, voz virando estática] Ele foi embora sem saber que era ele quem ia Morreu de olhos abertos sem saber que era um homem de verdade E a rua continua interrompida— o buraco no asfalto onde ele caiu E o céu continua tropeçando em cada pedreiro que sobe E a música continua saindo dos ossos dele, subindo do cimento, do meio-fio, da contramão como se a morte fosse apenas um erro de ritmo um compasso perdido uma nota fora do tom [Final – eco infinito de botequim fechado] Ele amou como se amar fosse o último erro que um homem pode cometer Ele dançou como se dançar fosse o primeiro acerto de uma vida inteira errada E caiu como quem cai no meio de uma melodia que ainda não acabou que nunca vai acabar que continua tocando mesmo depois que o disco quebrou (silêncio) (chiado do vinil) (a agulha patinando no vazio) --- *[ Voice style suggestion: a warm, expressive, introspective male voice — tone and phrasing similar to a poetic storyteller from Brazilian popular music, soft vibrato, emotional control, vintage microphone color.]* *[ Recommended genres: melancholic samba fusion, cinematic jazz poetry, lo-fi bossa reflection, urban storytelling, soulful latin ballad, ambient acoustic samba, existential cabaret, poetic folk fusion, emotional singer-songwriter,]* slow samba groove