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Coveiro de mim (Jardineiro)

V6

# COVEIRO DE MIM (JARDINEIRO) ## POÉTICA DA QUEDA: CATÁBASE [Language: Native Brazilian Portuguese, Carioca accent] [Intro: Heavy vinyl crackle, detuned Rhodes, low-pass filter] [SFX: Shovel digging dry soil, heavy breathing] [Male Spoken Word: Exhausted, dry close-mic] Acordo e não sei que porra de dia é hoje... Nem por que diabo de motivo eu insisti em abrir o olho. [Pause] Mais um dia sendo funcional numa casa que já caiu. [Verse 1: Dragging boom-bap, intimate male tenor] Os dias se misturam feito tinta barata na água, Um looping infinito de cinza, rotina e mágoa. Navego num mar de concreto onde nunca ancorei, Sem mapa, sem norte, sem porra nenhuma... eu sei. Tô no cativeiro pagando o aluguel do meu inferno, Mantendo a fachada enquanto o gesso cai no inverno. Um robô funcional que responde mensagem em looping, Gastando o resto do fôlego pra fingir que tá tudo bem. [Pre-Chorus: Metallic snaps, rising 808] Cansei de performar o herói pra quem quer ver meu fim, De limpar o terreno pra quem nem olha pra mim. Olha a rachadura na viga, o cimento cedendo... O plano diretor da minha vida tá se corrompendo! [Chorus: Massive 808, cinematic strings, soulful high tenor] EU FUI O COVEIRO DE MIM MESMO! ENTERRANDO QUEM EU NÃO PODIA SER! NO CEMITÉRIO DO "UM DIA", QUANTA VIDA EU DEIXEI DE VIVER! EU SOU O COVEIRO DE MIM MESMO, CARALHO! COM A PÁ NA MÃO, CAVANDO O PRÓPRIO CHÃO! MAS DEBAIXO DE TODA ESSA RUÍNA AINDA EXISTE TERRA PRA OUTRA ESTAÇÃO! [Post-Chorus: Distant male harmonies] Coveiro de mim... [Choir: De mim...] O que morreu aqui? [Choir: O que morreu?] [Verse 2: Dirty bass, anxious trap hi-hats] Lá fora tem plateia medindo meu caixão, Especulação imobiliária em cima da depressão. Querem saber da queda, do tamanho do estrago, Mas ninguém aparece pra carregar um saco. Tinha amigo querendo a vista da cobertura, Mas nunca perguntou se eu precisava de estrutura. Eu vendia meu descanso pra comprar pertencimento, E ainda agradecia quando sobrava sofrimento. A Decência me queria calado, A Decadência me chamava pra sentir. A Dignidade exigia concreto, Mesmo quando eu mal conseguia dormir. [Pre-Chorus 2: Sparse cello, sub-bass heartbeat] Três filhas da Morte rondando meu terreno, Três jeitos de sumir sem sair do lugar. Mas eu não vim pra assinar meu desaparecimento, Eu vim entender o que preciso preservar. [Chorus: Full orchestral trap, controlled emotional belt] EU FUI O COVEIRO DE MIM MESMO! ENTERRANDO QUEM EU NÃO PODIA SER! NO CEMITÉRIO DO "UM DIA", QUANTA VIDA EU DEIXEI DE VIVER! EU SOU O COVEIRO DE MIM MESMO, CARALHO! COM A PÁ NA MÃO, CAVANDO O PRÓPRIO CHÃO! MAS DEBAIXO DE TODA ESSA RUÍNA AINDA EXISTE TERRA PRA OUTRA ESTAÇÃO! [Instrumental Break: Lonely piano, shovel scraping stone] [Bridge: All drums stop, intimate male spoken word] Eu achei que era forte porque aguentava tudo. [Pause] Mas eu não tava construindo um império. Tava cavando um buraco e chamando de fundação. Enterrei descanso pra parecer produtivo. Enterrei desejo pra parecer decente. Enterrei meu pedido de ajuda pra parecer digno. E quando a saudade vinha... Eu desenterrava até o que me fazia mal. [Long pause] Porra... Eu não preciso de mais uma cova. Preciso aprender a cuidar da terra. [Sound FX: First drops of water on dry soil] [Verse 3: Tender male tenor, warm Rhodes] Minha pá encontrou o barro, Debaixo do concreto e da dor. Eu pensei que fosse só mais lama, Mas ali ainda havia calor. Ouvi Nanã no fundo do silêncio, Não como ordem, nem condenação. Como mãe que conhece o tempo De deixar a terra em suas mãos. [Male Spoken Word: Quiet, vulnerable] Minha mãe... Eu não sei fazer isso sozinho. [Soft cello rises] [Male Singing: Gentle falsetto] Se esse barro ainda me reconhece, Me ensina a não me abandonar. Não preciso nascer pronto amanhã, Só preciso de um lugar pra descansar. [Final Chorus: Emotional soulful climax, restrained percussion] EU FUI O COVEIRO DE MIM MESMO! MAS NÃO SOU SÓ AQUILO QUE PERDI! SE ENTERREI TANTOS SONHOS NESSA TERRA, AINDA POSSO DESCOBRIR O QUE RESTOU AQUI! EU SOU O COVEIRO DE MIM MESMO, CARALHO! MAS A PÁ TAMBÉM PREPARA O CHÃO! NÃO VOU CHAMAR MINHA DOR DE DESTINO, NEM CONFUNDIR SEPULTURA COM FUNDAÇÃO! [Outro: Drums fade, slow atabaque, warm piano] [Male Spoken Word: Intimate] Saluba Nanã... O barro tá úmido. [Pause] Ainda não tenho tijolo. Não tenho parede. Não tenho projeto aprovado. Mas tenho terra. [Sound FX: Shovel placed gently on soil] E pela primeira vez... Não preciso cavar mais fundo hoje. [Male Whisper] O coveiro descansou. O jardineiro ainda vai aprender. [End: One soft atabaque strike, distant rain]