
O Defunto que Voltou
NARRADOR 1: Um artista da periferia vem chamando atenção nas redes. O indivíduo possui antecedentes criminais. NARRADOR 2: Segundo as autoridades, trata-se de um indivíduo de alta periculosidade. Um homem com histórico de violência, passagens pelo sistema prisional e um discurso considerado agressivo. NARRADOR 1: Agora, o ex-presidiário resolveu trocar a vida do crime pela arte. Cineasta. Rapper. Educador. Produtor cultural. Artista. NARRADOR 2: Mas seria essa uma verdadeira transformação? Ou apenas uma nova maneira de chamar atenção? NARRADOR 1: As obras apresentam uma linguagem agressiva, provocadora e questionadora. O conteúdo vem provocando reações nas redes. NARRADOR 2: E levantando uma questão: Até onde vai a liberdade de expressão de alguém com esse histórico? NARRADOR 1: Marginal. Criminoso. Perigoso. Ex-presidiário. Ameaça. Mau elemento. Artista. Fotógrafo. Rapper. Educador. NARRADOR 2: Um homem que já esteve atrás das grades agora quer falar sobre liberdade. REPÓRTER: Você foi preso. LUX BRASÍLIS: Fui . REPÓRTER: Você cometeu crimes. LUX BRASÍLIS: sim REPÓRTER: Então por que as pessoas deveriam ouvir você? LUX BRASÍLIS: Eu nunca pedi pra esquecerem o que eu fiz. Pedi pra vocês pararem de usar o que eu fiz pra decidir o que eu posso ser. REPÓRTER: Mas você entende que existe quem considere seu discurso perigoso? LUX BRASÍLIS: Entendo. REPÓRTER: E você se considera perigoso? LUX BRASÍLIS: Talvez. Mas não pelo motivo que vocês imaginam. LUX BRASÍLIS: Eu conheci a rua. Conheci a fome. Conheci a violência. Conheci a prisão. Conheci o silêncio. Mas também conheci a câmera. O livro. A caneta. O microfone. E foi aí que eu descobri uma coisa. Um homem pode sair da prisão... sem a prisão sair dele. Mas também pode acontecer o contrário. A cultura pode entrar onde a violência entrou primeiro. A arte pode ocupar o lugar onde o medo morava. E uma história que tentaram enterrar... pode voltar falando. NARRADOR 1: Marginal. Criminoso. Perigoso. Ex-presidiário. Ameaça. Artista. Fotógrafo. Rapper. Educador. NARRADOR 2: Vocês gostam de nomes. Eu também. Só que existe um que vocês ainda não colocaram na manchete. LUX BRASÍLIS: Subversivo. Transgressor. Inconveniente. Inclassificável. Incontrolável. Eu não vim apagar o passado. Eu vim revelar os negativos. Não vim pedir que esqueçam meus erros. Vim, impedir ,que eles sejam usados para apagar minha existência. Não vim contar uma história bonita. Vim contar uma história que sobreviveu. Eu sou o defunto que voltou pra fotografar o próprio velório. Meu nome é Lux Brasílis.

