(estrofe 1) Ao pé da mata encontrei um espelho, Sem moldura, sem vidro, sem qualquer rumor, O lago guardava em seu brilho vermelho As tintas da tarde e o ouro do sol. (estrofe 2) Nenhuma palavra cortava a superfície, Nenhuma pressa tentava correr, E o céu repousava com tal delicadeza Que a água parecia aprender a viver. (estrofe 3) As nuvens boiavam em seu pensamento, Como ideias serenas no centro do ser, E o vento, ao chegar, em suave movimento, Pedia licença para não o romper. (estrofe 4) No fundo escondia raízes e pedras, Mistérios guardados além do olhar, Pois toda alma calma, embora discreta, Tem profundezas difíceis de sondar. (refrão) Ó lago tranquilo de manso esplendor, Que refletes o céu sem nada tomar, Ensina ao meu peito que a paz interior É o mais profundo modo de amar. (estrofe 5) Garças passeavam na margem silente, Como versos brancos em lenta oração, E cada círculo aberto na corrente Desenhava no tempo uma meditação. (estrofe 6) O peixe surgia em discreto lampejo, Riscando o espelho com breve clarão, Como um pensamento, um sonho, um desejo Que toca a consciência e volta ao chão. (estrofe 7) Ao contemplar sua quietude rara, Ouvi sem palavras a grande lição: O mundo se revela com face mais clara A quem silencia o próprio coração. (refrão) Ó lago tranquilo de manso esplendor, Que refletes o céu sem nada tomar, Ensina ao meu peito que a paz interior É o mais profundo modo de amar. (estrofe 8) A lua desceu em prata serena, Banhando de estrelas a água e o capim, E a noite cantou, suave e pequena, Segredos antigos sem princípio ou fim. (estrofe 9) Nem toda grandeza se move em corrente, Nem toda verdade precisa clamar, Há forças imensas na alma consciente Que aprende, em silêncio, a se aquietar. (estrofe 10) Parti, mas levei no centro do peito A imagem da água beijando o luar; E desde então busco, no íntimo leito, Um lago tranquilo para refletir e amar. (refrão) Ó lago tranquilo de manso esplendor, Que refletes o céu sem nada tomar, Ensina ao meu peito que a paz interior É o mais profundo modo de amar.