
007 - POEMA PARA MAMÃE - DECLAMADO
Ó minha mãe, minha mulher amada, que alquebrada inda me segue os passos, venho aos teus braços procurar abrigo. Agora, sigo com os passos meus, mas sabe Deus que vem de ti a luz e sou a cruz para teus meigos braços. Venho dizer-te, neste dia lindo, que vou seguindo pelos desenganos puxando os anos ao empós de mim; se no jardim às vezes colho flores, os teus amores é que fazem isso e é por isso que te falo assim. Nosso passado, que aí mesmo está, não deixará eu me olvidar de ti, que conheci ainda moça e bela junto à janela do meu coração. Eu era, então, o teu menino amado, herói sonhado de tua novela. Dizias, vendo minha cara suja, mamãe coruja: que bonito eu era!; e primavera me fizeste ser sem perceber que só te dei tristezas com asperezas e desilusões, mesmo em ações que não queria ter. Eu já não tenho o véu do meu bercinho, que no caminho se perdeu bem cedo; o meu brinquedo de papel cortado ficou jogado em algum lugar, sem perguntar se me deixou vazia a alegria de lhe ter ao lado. E a mocidade me chegou depressa com a promessa de felicidade e a majestade da presença tua... mas fui à rua e ... conhecendo alguém fiz dela um bem e me uni a ela, na passarela que já foi só tua. E minha mãe, que me criou sofrendo, quase morrendo a cada pranto meu, me deu sorrindo para outra mulher... outra mulher que é mamãe agora, que às vezes chora de um bercinho ao lado, pois este é o fado de qualquer mulher... Por tudo, tudo, vou seguindo a lida, honrando a vida que ganhei de ti, jogando a sombra a teus amados pés. E nas marés do mundo que me agita, quisera a escrita de saber viver, metade ser do que eu sei que és...

