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Rei do Pedaço

V6

[Intro - spoken, mocking, voice cracks] Yo. Treze anos. Quase catorze. Já tenho um pêlo no queixo. Um. Mas é meu. (skrrt) É a cadeira da sala, não é o carro. [Verse 1 - cocky, mid-tempo flow] Treze anos e um pêlo no queixo, chamo-lhe barba, A mãe chama-lhe "cisco", mas a mãe não entende nada. A voz muda a meio da frase, do baixo p'ró soprano, É o corpo a avisar que já é tempo de ter um plano. Já não uso mochila de rodinhas, isso era antes, Agora uso de alças, que é o que usam os gigantes. Barbeio-me ao domingo com a Gillette do pai, Não sai nada, mas o gesto é o que vai. Ponho desodorizante que até o cão se afasta, Cheiro a homem feito, cheiro a Axe, isso basta. [Chorus - sing-song, catchy, anthemic] Rei do recreio, dono do pavilhão, A escola no bolso e o bairro na mão, Vou ser milionário, fiz as contas na calculadora, Não tenho medo da bófia, só da diretora. [Verse 2 - smug, playful, nasal] As miúdas da escola olham todas p'ra mim (a professora diz que é por eu estar de pé, mas ela é assim). A Rita mandou um bilhete: "passa a cola, já", Eu li "és o meu ídolo", é ler nas entrelinhas, isto tá. A Leonor sorriu-me no corredor, ficou vermelha, Soube depois que eu tinha espinafre nos dentes, a culpa não é dela. No Dia dos Namorados recebi um cartão, Era da avó. Mas a avó também conta, não? Dizem que tenho charme, dizem que tenho estilo, Dizem "sai da frente", mas eu ouço "fica, tranquilo". [Verse 3 - aggressive, double-time flow, faster] Esquema um: pastilhas Gorila a cinquenta cêntimos, Compro a dez, vendo a cinquenta, chamo-lhe rendimentos. Esquema dois: lavagem de dinheiro, é literal, As moedas da avó vão à máquina, saem a brilhar, é tal e qual. Esquema três: tenho o cartel das faltas de Educação Física, A letra da tua mãe sou eu que faço, tarifa única. Esquema quatro: cromos, o mercado está dominado, Troco um Ronaldo por três reservas e ainda saio pago. Faço a contabilidade no caderno de Matemática, A professora diz "negativa", eu digo "é tática". Tenho um cofre: caixa de sapatos debaixo da cama, Trinta e dois euros e vinte, é um império, é fama. [Chorus - sing-song, catchy, anthemic] Rei do recreio, dono do pavilhão, A escola no bolso e o bairro na mão, Vou ser milionário, fiz as contas na calculadora, Não tenho medo da bófia, só da diretora. [Verse 4 - defiant, mocking, voice cracks] Não respeito regras, nem a fila da cantina, Só respeito o "não correr", que levei no queixo com a esquina. A polícia que se cuide, eu não deixo pista, A polícia é o contínuo, o Sr. Zé, e o Sr. Zé já não enxerga à vista. Toque de recolher? Eu faço as minhas horas, Na rua sou o chefe, ninguém me manda embora... Às nove e meia a mãe grita "ó Tiago!" da varanda, E o patrão vai a correr, não é medo, é que a sopa não espera, e manda. [Bridge - spoken, dramatic, then deflated] Um dia vou ter Lambo, mansão com piscina, P'ra já tenho a bicicleta, mas o selim é da prima. [Outro - slow, voice cracks, laughing] Lembrem-se do meu nome quando eu for o maior, Ou quando a voz mudar de vez, o que vier primeiro, melhor. ...o que vier primeiro.