
Chamam-me volante. Mas ninguém imagina quantas vidas já passaram pelas minhas mãos. Conheço o peso da alegria. E conheço ainda melhor o peso de quem finge estar bem. Fui apertado com força na primeira viagem. E também naquela em que um homem recebeu uma chamada que lhe mudou a vida... e mesmo assim teve de continuar a conduzir. Nunca escolhi destinos. Apenas acompanhei quem nunca desistiu deles. Vi crianças crescerem em fotografias presas ao tablier. Vi alianças gastas a baterem em mim ao ritmo de milhares de quilómetros. Vi lágrimas que ninguém viu cair. Porque a chuva, às vezes, é um excelente esconderijo. Também conheço os motards. Passam por mim como um sopro de liberdade. Um simples aceno. E durante um segundo... Dois desconhecidos deixam de o ser. E um dia... Um homem de boina vermelha segurou-me. As suas mãos não tremiam. Mas os seus olhos traziam batalhas que nunca seriam contadas. Nesse instante percebi... Há silêncios que merecem mais respeito do que mil discursos. Hoje continuo a girar. Todos os dias. Todas as noites. Porque enquanto houver alguém disposto a levar esperança, alimentos, medicamentos ou simplesmente um abraço até ao destino... Eu estarei aqui. À espera de mais um par de mãos. Porque eu não conduzo camiões. Eu conduzo histórias que ainda não terminaram.

