
[Verse 1] É tarde. Café morno, abajur mínimo. Eu digo: há engenhos que multiplicam o homem — espelhos, por exemplo. Abro o notebook: o link agora é vermelho. No lugar da página, apenas o silêncio e um atalho para “Discussão”. [Pre-Chorus] Atualizo o mundo com F5. O índice não devolve nada — só a sombra do que foi. [Chorus] Se o espelho amplia o número, a heresia amplia o glossário. Mas aqui só resta a ata: “fictício, não admissível”. Se o nome some do mapa, talvez o mapa tenha medo do real. [Verse 2] Entro na discussão: carimbos frios. “Não verificável”, “sem notabilidade”, “obra de ficção”. Fechamento unânime: **eliminar**. Procuro no Web Archive — nenhum retrato. O cursor pisca como quem nega testemunho; o rumor que lembrávamos não encontra captura. [Pre-Chorus] Se o real aceita errata, quem assina a errata do real? [Chorus] Se o espelho amplia o número, a heresia amplia o glossário. Mas aqui só resta a ata: “fictício, não admissível”. Se o nome some do mapa, talvez o mapa tema a sala que ele move. [Bridge — spoken] Eu e ele, duas cadeiras, o Wi-Fi e a noite. O artigo caiu — a conversa ficou. Se a margem decide, o mundo consente? Ou apenas encena que decide? [Chorus — variação] Espelhos pedem prudência, heresias pedem leitura. Entre “eliminar” e “manter”, um país impossível costura. Sem mirror, sem archive — e, mesmo assim, a sala inclina para o leste. [Outro] Fecho o navegador, não a pergunta. A parede devolve um corredor novo. Apago a luz devagar: a noite registra — sem link — o que não veremos de novo.

