
O MILAGRE PROFANO (PONTO DE SOBREVIVÊNCIA)
[Intro: A cappella, dry mix. Delicate high tenor vocal, using falsetto] Eu mastiguei o vidro das minhas próprias quedas... [Absolute silence for 1 second] E engoli a seco. Porque ainda tem estilhaço pra cuspir. Disseram que a minha estrutura ia ceder... (Risada curta, sem fôlego) Maluco, eu aprendi a rir da gravidade. [Verse 1: Warm organic piano enters smoothly, jazz chords] O meu corpo não tá fechado com simpatia vazia. Tem o ferro quente de Ogum soldando a minha costela... E a pedra de Xangô cravada na minha fundação. Quando o chão cedeu e eu virei escombro no escuro, A marreta bateu e forjou meu osso no fogo puro. [Verse 2: Piano gains volume. Vocal runs] Logunedé me deu o espelho e a precisão do arco, Pra eu pescar o meu próprio brilho no fundo do charco. E quando a minha alma apodreceu de dor e abandono... Oxum inundou minha carne! Preencheu a minha rachadura com ouro líquido! (Uhhh, ouro na ferida, baby...) Oxumaré girou o mundo, serpente devorando o tempo... E tatuou um arco-íris onde antes era só tormento! [Build-up: Percussion Break! Heavy Atabaques and Agogô enter. Massive 808 sub-bass drops] Fome de existir? A rua cobra caro! Mas Oxóssi botou a flecha na minha mão e avisou: "Vai buscar o teu, deparo!" Eu ajoelhei na humilhação do mundo, comi a poeira da rejeição... Até a justiça do machado bater e fazer a terra tremer por mim! [Intense percussion break. Tension rising] Fui caçado na pista, sem ar, sem teto... Oyá virou o tempo e me escondeu no olho da porra do furacão! [Bridge: Dense polyrhythm. Dramatic piano and strings mix with Atabaque] A febre do ódio queimou a minha sanidade... Omolu cobriu minhas chagas com palha. O silêncio curou a vaidade. [Beat stops abruptly. Tense silence] Eu tava sujo de mim mesmo... afogado no meu próprio rastro. Iemanjá me puxou pro abismo... (Sussurro rápido) Só pra me ensinar a respirar debaixo d'água. [Breakdown: Quiet tension. Piano dripping notes. Soft falsetto ASMR whisper-singing] Eu olhei na cara da morte, frente a frente. E a senhora da lama pediu licença. [Deep baritone vocal register] Eu sou de Nanã! Do barro escuro do fundo do poço, ela moldou minha espinha dorsal do zero! (Saluba!) [Rising tension: Strings sweeping in a massive crescendo] E quando a corda do desespero tentou me enforcar... Oxalá soprou um fôlego frio no meu pulmão em chamas! [Chorus: EXPLOSION! Massive wall of sound. Gigantic gospel choir enters, Lead vocal hits Pop-Soul belting high notes] Se eu fosse só carne, só ego, eu já era pó! Mas o meu peito é o terreiro onde o sagrado e a rua transam! Não é só a religião da paz, irmão... não me venha com dó! É o milagre profano de continuar vivo! É a porra do milagre de continuar vivo! [Outro: Slow fade out. Heavy atabaque rhythms continue, piano becomes sweet and warm] A fundação tá de pé. O milagre profano... de continuar vivo. [Final note: Choir fades. Lead vocal only, emotional delicate falsetto over a single atabaque hit] Eu sou de Nanã... eu tô vivo. [End]


