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DESUMANIZAÇÃO DO POBRE

(estrofe 1) Na esquina onde o vento recolhe papéis, cansaços e chão, alguns disseram que a pobreza escolhe quem merece ou não compaixão. (estrofe 2) Vestiram a miséria de culpa, como se a fome fosse opção, e fizeram da mesa que falta um defeito do coração. (estrofe 3) Olharam calos como sentença, rugas como acusação, sem perceber que a sobrevivência também é forma de oração. (estrofe 4) Quando o bolso vira medida do valor de cada irmão, a dignidade é reduzida a números de comparação. (refrão) Mas Deus escuta o prato vazio, o grito mudo e a mão sem pão, pois o Reino corre como rio lavando a culpa da exclusão. (estrofe 5) Disseram que riqueza é prova de especial aprovação, e que a escassez renova alguma falha na intenção. (estrofe 6) Mas há estruturas invisíveis como raízes sob o chão, que alimentam frutos impossíveis de nascer sem repartição. (estrofe 7) O pobre conhece a madrugada antes do sol e do café, e ainda carrega a estrada com a coragem da própria fé. (refrão) Mas Deus escuta o prato vazio, o grito mudo e a mão sem pão, pois o Reino corre como rio lavando a culpa da exclusão. (estrofe 8) Houve um Carpinteiro sem posses, de sandálias gastas no pó, que multiplicou pães e vozes para quem já caminhava só. (estrofe 9) Chamou felizes os que choram, os mansos e os que têm fome, porque no céu também moram os que o mundo esquece pelo nome. (estrofe 10) Se a fé quiser ser verdadeira, que veja no pobre um altar, pois toda vida, mesmo em poeira, é lugar de Deus habitar. (refrão) Mas Deus escuta o prato vazio, o grito mudo e a mão sem pão, e faz do último um desafio à consciência da nação.