(estrofe 1) Às vezes eu pensava, em profundo devaneio, Como seria o nada, sem começo nem rodeio; Se não houvesse estrelas, nem céu, nem chão, Nem sequer uma pergunta buscando explicação. (estrofe 2) E se não existisse o espaço para ocupar, Nem distância, nem lugar, nem onde repousar? Não haveria longe, perto, dentro ou exterior, Pois sem espaço algum não haveria dimensão maior. (estrofe 3) E se o tempo jamais tivesse começado, Sem ontem, sem amanhã, sem presente demarcado? Não haveria espera, mudança ou despedida, Nem nascimento, nem passagem chamada vida. (estrofe 4) E se a própria matéria nunca tivesse surgido, Nem átomo, nem estrela, nem mundo conhecido? Seria possível pensar numa ausência total, Sem mente, sem pensamento, sem realidade afinal? (refrão) E se nada existisse, nem mundo, nem céu, nem chão? E se nem houvesse espaço, tempo ou criação? Tenho saudades de mim pensando além do que via, Quando o mistério do nada minha mente desafiava e atraía. (estrofe 5) Eu tentava imaginar uma ausência completa, Mas minha própria mente tornava a ideia inquieta; Pois para pensar no nada eu precisava imaginar, E imaginar alguma coisa já parecia o nada contrariar. (estrofe 6) Se ninguém existisse para olhar e perguntar, Haveria realidade sem alguém para contemplar? Ou realidade e consciência seriam coisas diferentes, Existindo uma sem depender necessariamente das mentes? (estrofe 7) Pensava então no mistério de simplesmente existir, Na estranha condição de poder sentir e refletir; Eu era uma pequena presença no universo sem fim, E mesmo sendo tão pequeno, havia um mundo dentro de mim. (refrão) E se nada existisse, nem mundo, nem céu, nem chão? E se nem houvesse espaço, tempo ou criação? Tenho saudades de mim pensando além do que via, Quando o mistério do nada minha mente desafiava e atraía. (estrofe 8) Talvez o nada absoluto fosse impossível de explicar, Pois toda explicação precisaria de algo para começar; A pergunta parecia retornar ao mesmo lugar, Como um círculo infinito que não deixava de girar. (estrofe 9) Então compreendi que não saber também tem valor, Que a dúvida pode ensinar humildade ao pensador; Nem toda pergunta exige resposta imediata, Algumas apenas revelam como a realidade é vasta. (estrofe 10) Hoje lembro daquele jovem tentando compreender O que significa existir, desaparecer ou nascer; E vejo que pensar no nada, sem nada possuir, Era uma forma profunda de aprender a existir. (ponte) Lamento as vezes em que deixei de questionar, Quando o cotidiano me fez deixar de admirar; Perdi por algum tempo aquela inquietação, Que fazia do mistério uma fonte de reflexão. (refrão) E se nada existisse, nem mundo, nem céu, nem chão? E se nem houvesse espaço, tempo ou criação? Tenho saudades de mim pensando além do que via, Quando o mistério do nada minha mente desafiava e atraía. (refrão final) Hoje eu amo quem sou e aceito não saber, E escolho com alegria continuar a compreender; Se a tristeza chegar, também poderá existir, Eu me amo, abraço o mistério e continuo a seguir.