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CRIMES DE HONRA E SILENCIAMENTO

(estrofe 1) Chamaram de honra o grito contido, vestiram de zelo a pedra na mão, no nome da fé selaram o ouvido, e o medo ganhou coroação. (estrofe 2) Entre paredes de hinos e incenso, a culpa aprendeu a falar baixo, quem sangra por dentro paga o preço de manter intacto o velho encaixe. (estrofe 3) Disseram que amor protege a imagem, que o silêncio preserva o altar, mas sob a toalha da “boa linhagem” a lágrima aprende a se calar. (estrofe 4) Conselhos soavam como sentença, a vítima ouvia: “suporte em oração”, e a violência, pedindo clemência, ganhava absolvição no sermão. (refrão) Não é justiça ferir para manter, não é santidade fazer alguém morrer, quando a honra exige sangue e dor, já não fala Deus, mas o opressor. (estrofe 5) A mesa que deveria acolher tornou-se tribunal doméstico, onde o erro do outro é motivo para um castigo dito “ético”. (estrofe 6) A reputação virou ídolo antigo, com sacrifícios não confessados, e quem denuncia o perigo é chamado de “desviado”. (estrofe 7) O nome da família pesa como espada, cortando sonhos e voz feminina, enquanto a fé, mal interpretada, faz da dor uma disciplina. (refrão) Não é justiça ferir para manter, não é santidade fazer alguém morrer, quando a honra exige sangue e dor, já não fala Deus, mas o opressor. (estrofe 8) Mas houve um Homem que, entre pedras, ajoelhou-se ao lado da acusada, e escreveu na areia da terra que a culpa não mata a amada. (estrofe 9) Ele tocou leprosos sem medo, rompeu o protocolo da exclusão, mostrou que o amor é segredo que restaura sem humilhação. (estrofe 10) Se a comunidade quer ser sagrada, que aprenda o peso do perdão, pois honra que nasce da espada não floresce no coração. (refrão) Não é justiça ferir para manter, não é santidade fazer alguém morrer, o Reino floresce onde há compaixão, não onde o silêncio encobre a agressão.