
(estrofe 1) Quando o passado bate à porta da memória, há quem prefira esconder a cicatriz; rasga páginas para salvar a própria história e pinta de virtude o que nunca foi feliz. (estrofe 2) Mas o tempo não aceita maquiagem, nem o silêncio apaga o que aconteceu; uma instituição pode mudar sua linguagem, mas não consegue reescrever o que viveu. (estrofe 3) Há arquivos fechados, nomes esquecidos, há testemunhos tratados como traição; há capítulos inteiros removidos, para conservar intacta uma reputação. (estrofe 4) Quando a verdade ameaça o monumento, a memória pode sofrer perseguição; mas esconder a ferida por dentro do templo não produz cura, produz repetição. (refrão) Não apague a memória para salvar a fachada, nem transforme silêncio em santidade; quem encara a verdade, mesmo dolorosa, pode transformar culpa em responsabilidade. (estrofe 5) O profeta não foi contratado para agradar, nem recebeu a missão de dourar o passado; sua palavra tinha coragem de lembrar o erro que o poder queria ter apagado. (estrofe 6) Natã entrou no palácio sem temer, e colocou diante do rei sua verdade; não pediu ao poderoso para esquecer, mas chamou o pecado pelo nome de verdade. (estrofe 7) Ezequiel não escondeu as ruínas da cidade, nem maquiou a dor de uma geração; registrou derrotas, culpas e calamidades, para que a lembrança produzisse reflexão. (refrão) Não apague a memória para salvar a fachada, nem transforme silêncio em santidade; quem encara a verdade, mesmo dolorosa, pode transformar culpa em responsabilidade. (estrofe 8) Uma igreja madura não precisa parecer perfeita, pois ninguém encontra luz fingindo não cair; ela pode reconhecer a própria trajetória e aprender com aquilo que fez sofrer e ferir. (estrofe 9) Memória não é vingança guardada, nem tribunal eterno contra quem passou; é uma ponte sobre a estrada marcada, para impedir que o erro novamente voltou. (estrofe 10) Que os livros contem também os esquecidos, que os arquivos preservem cada versão; pois quando os vencidos recuperam seus sentidos, a história deixa de pertencer só ao vencedor. (refrão) Não apague a memória para salvar a fachada, nem transforme silêncio em santidade; quem encara a verdade, mesmo dolorosa, pode transformar culpa em responsabilidade.

